segunda-feira, 24 de setembro de 2018


Daniel 03 — A Integridade Provada pelo Fogo


Versículo 1: O rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro que tinha sessenta côvados de alto e seis de largo; levantou-a no campo de Dura, na província de Babilônia. 

Admite-se que esta imagem, em certo sentido, se referia ao sonho do rei, descrito no capítulo anterior. Naquele sonho a cabeça era de ouro e representava o reino de Nabucodonosor. Sucediam-no metais de qualidade inferior, que simbolizavam uma sucessão de reinos. Nabucodonosor sentiu-se indubitavelmente satisfeito de que seu reino fosse representado pelo ouro; mas não lhe agradava o fato ser sucedido por outro reino. Por isso, em vez de decidir que sua imagem tivesse só a cabeça de ouro, ele a fez toda de ouro, para indicar que seu reino não daria lugar a outro reino, mas se perpetuaria. 

Versículos 2-7: Então o rei Nabucodonosor mandou ajuntar os sátrapas, os prefeitos e governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os conselheiros e todos os oficiais das províncias, para que viessem à consagração da imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado. Então se a juntaram os sátrapas, os prefeitos e governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os conselheiros e todos os oficiais das províncias, para a consagração da imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado; e estavam de pé diante da imagem que Nabucodonosor tinha levantado. Nisto o arauto apregoava em alta voz: Ordena-se a vós outros, ó povos, nações e homens de todas as línguas: No momento em que ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles, e de toda sorte de música, vos prostrareis, e adorareis a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor levantou. Qualquer que se não prostrar e não a adorar, será no mesmo instante lançado na fornalha de fogo ardente. Portanto, quando todos os povos ouviram o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, e de toda sorte de música, se prostraram os povos, nações e homens de todas as línguas, e adoraram a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor tinha levantado. 

Dedicação da Imagem — A dedicação desta imagem tornou-se uma grande ocasião, pois foram convocados os homens principais de todo o reino. A tantos esforços e gastos os homens se dispõem para sustentar os sistemas de culto idólatras e pagãos. Quão lastimável é que os que têm a verdadeira religião sejam tão suplantados neste particular pelos que sustentam o falso e o espúrio! A adoração era acompanhada de música; e quem quer que dela não participasse via-se ameaçado de ser lançado na fornalha ardente. Tais são sempre os motivos mais fortes empregados para impelir os homens em qualquer direção; de um lado o prazer, do outro a dor.

Versículos 8-12: Ora, no mesmo instante, se chegaram alguns homens caldeus e acusaram os judeus; disseram ao rei Nabucodonosor: Ó rei, vive eternamente! Tu, ó rei, baixaste um decreto pelo qual todo homem que ouvisse o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles e de toda sorte de música se prostraria e adoraria a imagem de ouro; e qualquer que não se prostrasse e não adorasse seria lançado na fornalha de fogo ardente. Há uns homens judeus, que tu constituíste sobre os negócios da província da Babilônia: Sadraque, Mesaque e Abede-Nego; estes homens, ó rei, não fizeram caso de ti, a teus deuses não servem, nem adoram a imagem de ouro que levantaste. 

Três Hebreus Provados — Os caldeus que acusaram aos judeus eram provavelmente da seita de filósofos conhecida por esse nome, ainda afligidos pelo ressentimento do ignominioso fracasso que sofreram quando não puderam interpretar o sonho do rei relatado em Daniel 2. Avidamente queriam aproveitar qualquer pretexto para acusar os judeus perante o rei para conseguir sua desonra ou morte. Influíram nos preconceitos do rei, insinuando insistentemente que esses hebreus eram ingratos. Queriam dizer: “Tu os encarregaste dos negócios de Babilônia, e eles te desprezaram.” Não se sabe onde estava Daniel nessa ocasião. É provável que estivesse ausente, cuidando de algum negócio do império. Mas por que estavam presentes Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, sabendo que não podiam adorar a imagem? Não era porque estavam dispostos a cumprir as exigências do rei até onde lhes fosse possível sem comprometer seus princípios religiosos? O rei exigia que estivessem presentes. Isso eles podiam cumprir, e o fizeram. Exigiu que adorassem a imagem. Isso lhes era vedado por sua religião e se negaram a fazê-lo. 

Versículos 13-18: Então, Nabucodonosor, irado e furioso, mandou chamar Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. E trouxeram a estes homens perante o rei. Falou Nabucodonosor e lhes disse: É verdade, ó Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que vós não servis a meus deuses, nem adorais a imagem de ouro que levantei? Agora, pois, estai dispostos e, quando ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da cítara, da harpa, do saltério, da gaita de foles, prostrai-vos e adorai a imagem que fiz; porém, se não a adorardes, sereis, no mesmo instante, lançados na fornalha de fogo ardente. E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos? Responderam Sadraque, Mesaque e Abede-Nego ao rei: Ó Nabucodonosor, quanto a isto não necessitamos de te responder. Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste. 

A tolerância do rei se nota no fato de haver concedido a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego outra oportunidade após sua primeira negativa a cumprir-lhe as exigências. Sem dúvida eles compreendiam plenamente o assunto. Não podiam alegar ignorância. Sabiam exatamente o que o rei queria, e não lhe obedeciam por recusa intencional e deliberada. No caso da maioria dos reis isso teria bastado para selar a sorte deles. Mas Nabucodonosor disse: Não; relevarei esta ofensa se numa segunda prova cumprirem a lei. Eles, porém, informaram ao rei que ele não precisava dar-se ao trabalho de repetir a prova. Sua resposta foi honesta e decisiva: “Quanto a isto” — disseram — “não necessitamos de te responder”, Quer dizer, não precisas conceder-nos o favor de outra prova; nossa decisão está tomada. Podemos tão bem responder-te agora como em qualquer momento futuro; e nossa resposta é: “Não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste. Nosso Deus pode livrar-nos, se quiser; mas se não o fizer, não nos queixaremos. Conhecemos Sua vontade, e a ela obedeceremos incondicionalmente.” 

Versículos 19-25: “Então, Nabucodonosor se encheu de fúria e, transtornado o aspecto do seu rosto contra Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, ordenou que se acendesse a fornalha sete vezes mais do que se costumava. Ordenou aos homens mais poderosos que estavam no seu exército que atassem a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego e os lançassem na fornalha de fogo ardente. Então, estes homens foram atados com os seus mantos, suas túnicas e chapéus e suas outras roupas e foram lançados na fornalha sobremaneira acesa. Porque a palavra do rei era urgente e a fornalha estava sobremaneira acesa, as chamas do fogo mataram os homens que lançaram de cima para dentro a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Estes três homens, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, caíram atados dentro da fornalha sobremaneira acesa. Então, o rei Nabucodonosor se espantou, e se levantou depressa, e disse aos seus conselheiros: Não lançamos nós três homens atados dentro do fogo? Responderam ao rei: É verdade, ó rei. Tornou ele e disse: Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses. 

Nabucodonosor não estava inteiramente isento das faltas e insensatez em que tão facilmente incorre um monarca absoluto. Embriagado pelo poder ilimitado, não podia suportar desobediência ou contradição. Mesmo que fosse por bons motivos, se alguém lhe resistia à autoridade expressa, Nabucodonosor manifestava a fraqueza que em tais circunstâncias é comum entre a humanidade caída, e se enfurecia. Embora dominasse o mundo, o rei não sabia cumprir a tarefa ainda mais difícil de dominar seu próprio espírito. Seu rosto ficou transtornado. Em vez do domínio próprio da aparência serena e digna que devia ter conservado, deixou transparecer, na expressão e nos atos, que era escravo de ingovernável paixão. 

 Lançados na fornalha de fogo — A fornalha foi aquecida sete vezes mais do que de costume, ou seja, até o máximo. Nisto o rei anulava seu propósito; pois mesmo que o fogo tivesse sobre as pessoas nele lançadas o efeito esperado, só as teria destruído mais depressa. O rei nada ganharia com seu furor. Mas ao serem libertos desse efeito, muito foi ganho para a causa de Deus e Sua verdade; pois quanto mais intenso o calor, tanto maior e mais impressionante o milagre de os jovens serem livrados dele. 

 Cada circunstância revelou o direto poder de Deus. Os hebreus foram atados com todas as suas vestes; mas saíram sem sequer passar sobre eles o cheiro do fogo. Os homens mais fortes do exército foram escolhidos para os lançarem na fornalha; mas o fogo matou aqueles homens antes de entrarem em contato com ele, ao passo que sobre os hebreus não teve efeito, embora estivessem bem no meio das chamas. É evidente que o fogo se achava sob o domínio de algum ser sobrenatural, pois embora tivesse consumido as cordas com que eles foram atados, de modo que ficaram livres para andar no meio do fogo, nem sequer lhes chamuscou as vestes. Não saltaram do fogo assim que ficaram livres, mas nele continuaram; pois, em primeiro lugar, o rei os mandara colocar ali, e competia-lhe convidá-los a sair. Além disso, havia uma quarta pessoa com eles, e em Sua presença podiam estar tão contentes e alegres na fornalha de fogo, como nas delícias e nos luxos do palácio. Oxalá que em todas as nossas provas, aflições, perseguições e apertos tenhamos a companhia daquela Quarta Pessoa, e nos será suficiente! 

 O Rei Adquire uma Nova Visão — O rei disse: “O aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses.” Alguns pensam que esta linguagem se refere a Cristo. O significado mais literal é que tinha aspecto de ser divino. Mas embora esta fosse a maneira como Nabucodonosor tinha por hábito referir-se aos deuses que adorava (ver os comentários sobre Daniel 4:18) isso não é base para crer que a expressão possa referir-se a Cristo, porque a palavra elahin, aqui empregada em sua forma caldeia, embora no plural, traduz-se por Deus em todo o Antigo Testamento. 

 Que contundente repreensão à insensatez e loucura do rei foi o livramento daqueles nobres jovens da fornalha ardente! Um poder superior a qualquer outro da Terra tinha vindicado os que permaneceram firmes contra a idolatria e desprezado o culto e as exigências do rei. Nenhum dos deuses pagãos jamais havia efetuado nem jamais podia efetuar semelhante livramento. 

Versículos 26-30: Então, se chegou Nabucodonosor à porta da fornalha sobremaneira acesa, falou e disse: Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, servos do Deus Altíssimo, saí e vinde! Então, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego saíram do meio do fogo. Ajuntaram-se os sátrapas, os prefeitos, os governadores e conselheiros do rei e viram que o fogo não teve poder algum sobre os corpos destes homens; nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça, nem os seus mantos se mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles. Falou Nabucodonosor e disse: Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou o seu anjo e livrou os seus servos, que confiaram nele, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar o seu corpo, a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus. Portanto, faço um decreto pelo qual todo povo, nação e língua que disser blasfêmia contra o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja despedaçado, e as suas casas sejam feitas em monturo; porque não há outro deus que possa livrar como este. Então, o rei fez prosperar a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego na província da Babilônia. 

Ao receberem a ordem, os três homens saíram da fornalha. Então os príncipes, os governadores, e os conselheiros do rei, por cujo conselho ou assentimento, haviam sido lançados no fogo, pois o rei disse: “Não lançamos nós três homens atados dentro do fogo?” (versículo 24), se reuniram para ver esses homens e obterem a prova visível e tangível de sua milagrosa preservação. Todos se esqueceram do culto da grande imagem. Todo o interesse desse vasto concurso de pessoas se concentrou nesses três homens notáveis. Como se deve ter difundido por todo o império o conhecimento desse livramento quando as pessoas voltaram a suas províncias! Que notável exemplo de haver Deus feito a ira do homem redundar em Seu louvor! 

O Rei Reconhece o Verdadeiro Deus — Então o rei bendisse o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, e decretou que ninguém falasse contra Ele. Sem dúvida os caldeus tinham falado contra Deus. Naqueles dias, cada nação tinha seu deus ou seus deuses, pois havia “muitos deuses e muitos senhores”. A vitória de uma nação sobre outra supunha-se ocorrer porque os deuses da nação vencida não podiam livrá-la de seus conquistadores. Os judeus tinham sido completamente subjugados pelos babilônios, e sem dúvida estes tinham falado desdenhosamente do Deus dos judeus. Isso o rei agora proibia, pois compreendia claramente que seu êxito contra os judeus se devia aos pecados deles e não por falta de poder do seu Deus. A que conspícua e exaltada luz isso colocava o Deus dos hebreus em comparação com os deuses das nações! Era um reconhecimento de que Ele considerava os homens receptivos a alguma elevada norma de caráter moral e não via com indiferença suas ações em referência a ela. 

 Nabucodonosor procedeu bem ao exaltar publicamente o Deus do céu acima dos demais deuses. Não tinha, porém, direito civil ou moral de impor a seus súditos uma confissão e reverência semelhante, nem de ameaçar de morte aos que não adorassem o verdadeiro Deus como tinha feito com os que se negassem adorar sua imagem de ouro.  Três Hebreus Promovidos — O rei promoveu os jovens cativos, isto é, restituiu-lhes os cargos que haviam ocupado antes de serem acusados de desobediência e traição. Ao fim do versículo 30, a Septuaginta acrescenta: “E os elevou a governadores sobre todos os judeus que havia em seu reino.” O rei não mais insistiu na adoração de sua imagem. 







Daniel 04 — O Altíssimo Reina


Versículos 1-3: O rei Nabucodonosor a todos os povos, nações e homens de todas as línguas, que habitam em toda a terra. Paz vos seja multiplicada! Pareceu-me bem fazer conhecidos os sinais e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo. Quão grandes são os sinais, e quão poderosas as Suas maravilhas. O Seu reino é reino sempiterno, e o Seu domínio de geração em geração.

Este capítulo, diz Adam Clarke, “é um decreto regular, e um dos mais antigos registrados. Não há dúvida de que foi copiado dos documentos oficiais de Babilônia. Daniel o havia conservado no idioma original” 

 O Rei Exalta o Verdadeiro Deus — Esse decreto de Nabucodonosor foi promulgado na forma usual. Queria tornar conhecida, não apenas a algumas pessoas, mas a todos os povos, nações e línguas, a maneira maravilhosa com que Deus o tratou. As pessoas estão sempre prontas a contar o que Deus fez por elas em termos de benefícios e bênçãos. Devíamos igualmente estar dispostos a contar o que Deus tem feito por nós tanto na humilhação como no castigo, Nabucodonosor nos deu um bom exemplo a esse respeito, como veremos nas partes subsequentes deste capítulo. Confessa francamente a vaidade e o orgulho de seu coração e fala abertamente dos meios que Deus empregou para humilhá-lo. Com sincero espírito de arrependimento e humilhação achou por bem revelar estas coisas a fim de que a soberania de Deus fosse exaltada e Seu nome adorado. Nabucodonosor já não pede imutabilidade para o seu próprio reino, mas se entrega plenamente a Deus, reconhecendo que só o Seu reino é eterno e Seu domínio de geração em geração. 

Versículos 4-18: Eu, Nabucodonosor, estava tranquilo em minha casa e feliz no meu palácio. Tive um sonho, que me espantou; e, quando estava no meu leito, os pensamentos e as visões da minha cabeça me turbaram. Por isso, expedi um decreto, pelo qual fossem introduzidos à minha presença todos os sábios da Babilônia, para que me fizessem saber a interpretação do sonho. Então, entraram os magos, os encantadores, os caldeus e os feiticeiros, e lhes contei o sonho; mas não me fizeram saber a sua interpretação. Por fim, se me apresentou Daniel, cujo nome é Beltessazar, segundo o nome do meu deus, e no qual há o espírito dos deuses santos; e eu lhe contei o sonho, dizendo: Beltessazar, chefe dos magos, eu sei que há em ti o espírito dos deuses santos, e nenhum mistério te é difícil; eis as visões do sonho que eu tive; dize-me a sua interpretação. Eram assim as visões da minha cabeça quando eu estava no meu leito: eu estava olhando e vi uma árvore no meio da terra, cuja altura era grande; crescia a árvore e se tornava forte, de maneira que a sua altura chegava até ao céu; e era vista até aos confins da terra. A sua folhagem era formosa, e o seu fruto, abundante, e havia nela sustento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e todos os seres viventes se mantinham dela. No meu sonho, quando eu estava no meu leito, vi um vigilante, um santo, que descia do céu, clamando fortemente e dizendo: Derribai a árvore, cortai-lhe os ramos, derriçai-lhe as folhas, espalhai o seu fruto; afugentem-se os animais de debaixo dela e as aves, dos seus ramos. Mas a cepa, com as raízes, deixai na terra, atada com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo. Seja ela molhada do orvalho do céu, e a sua porção seja, com os animais, a erva da terra. Mude-se-lhe o coração, para que não seja mais coração de homem, e lhe seja dado coração de animal; e passem sobre ela sete tempos. Esta sentença é por decreto dos vigilantes, e esta ordem, por mandado dos santos; a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles. Isto vi eu, rei Nabucodonosor, em sonhos. Tu, pois, ó Beltessazar, dize a interpretação, porquanto todos os sábios do meu reino não me puderam fazer saber a interpretação, mas tu podes; pois há em ti o espírito dos deuses santos. 

Esta parte do relato inicia quando Nabucodonosor tinha vencido todos os seus inimigos. Tivera êxito em seus empreendimentos militares. Subjugara a Síria, Fenícia, Judeia, Egito e Arábia. Foram provavelmente estas grandes conquistas que o induziram a confiar em si mesmo. Exatamente nesse tempo, quando se sentia mais descansado e seguro, quando era mais improvável ocorrer algo que lhe perturbasse a tranquilidade, nesse mesmo tempo, Deus decidiu afligi-lo com temores e pressentimentos. 

 O Rei Perturbado por Outro Sonho — Mas o que poderia infundir temor ao coração de um rei como Nabucodonosor? Desde a juventude ele fora guerreiro. Frequentemente enfrentara os perigos dos combates, os terrores da matança e permanecera incólume em meio a essas cenas. Que haveria de amedrontá-lo agora? Nenhum inimigo o ameaçava, não se via nuvem hostil no horizonte. Seus próprios pensamentos e visões foram utilizados para ensinar-lhe o que nenhuma outra coisa podia ensinar-lhe: uma salutar lição de dependência e humildade. Ele, que havia aterrorizado a outros, mas a quem nenhuma outra pessoa podia aterrorizar, foi feito terror de si mesmo. 
 Humilhação ainda maior que a narrada no segundo capítulo foi infligida aos magos. Naquela ocasião eles se jactavam de que se tão somente conhecessem o sonho poderiam revelar sua interpretação. Agora, Nabucodonosor lembra claramente o sonho e o relatou, mas o aflige haverem seus servos voltado a falhar ignominiosamente. Não puderam dar a interpretação e novamente o monarca recorreu ao profeta de Deus. 

 O reinado de Nabucodonosor é simbolizado por uma árvore que brotava no meio da Terra. Babilônia, cidade onde Nabucodonosor reinou, estava aproximadamente no centro do mundo então conhecido. A árvore chegava até ao céu e suas folhas eram viçosas. Grandes eram sua glória externa e seu esplendor. Tinha excelências internas. Seu fruto era abundante e proporcionava alimento a todos. Os animais do campo se refugiavam à sua sombra, as aves do céu moravam em seus ramos. Que outra coisa podia representar com mais clareza e força o fato de que Nabucodonosor regia seu reino com tal eficiência que proporcionava a mais plena proteção, sustento e prosperidade a todos os seus súditos? Ao ser dada a ordem para cortar a árvore, ordenou-se também que o tronco fosse deixado na terra. Devia ser protegida com cadeia de ferro e de bronze para que não se estragasse, mas subsistisse a fonte de futuro crescimento e grandeza. 

 Aproxima-se o dia em que os ímpios serão cortados e não lhes restará esperança. Não haverá misericórdia misturada com o seu castigo. Serão destruídos, raiz e ramo, conforme expressa Malaquias. 

 “Passem sobre ele sete tempos”, dizia o decreto. É evidente que esta simples expressão deve ser entendida literalmente. Mas quanto abrange este período de “sete tempos”? Pode-se determinar pelo tempo que Nabucodonosor, em cumprimento desta predição, foi afastado para morar com os animais do campo. Isso, informa-nos Josefo, durou sete anos. Portanto, aqui “um tempo” representa um ano.

 Quanto interesse sentem anjos pelos assuntos humanos! Veem, como jamais os mortais podem ver, quão indecoroso é o orgulho no coração humano. Como ministros de Deus executam alegremente os decretos de Deus para corrigir o mal. O homem deve saber que não é o arquiteto de seu próprio destino, porque há Um que predomina sobre os reinos dos homens e eles devem humildemente colocar-se na dependência dEle. Um homem pode ser um governante de êxito, mas não se deve orgulhar disso, pois se o Senhor não o tivesse permitido, ele jamais teria alcançado essa posição de honra. 

 Nabucodonosor reconhece a supremacia do verdadeiro Deus sobre os oráculos pagãos. Solicita a Daniel que resolva o mistério. “Tu podes” — disse ele “pois há em ti o espírito dos deuses santos.” 

 Conformou se observou ao tratar Daniel 3:25, Nabucodonosor volta agora à sua maneira habitual de mencionar os deuses no plural, embora a Septuaginta traduz assim: “O espírito do Deus santo está em ti.” 

Versículos 19-27: Então, Daniel, cujo nome era Beltessazar, esteve atônito por algum tempo, e os seus pensamentos o turbavam. Então, lhe falou o rei e disse: Beltessazar, não te perturbe o sonho, nem a sua interpretação. Respondeu Beltessazar e disse: Senhor meu, o sonho seja contra os que te têm ódio, e a sua interpretação, para os teus inimigos. A árvore que viste, que cresceu e se tornou forte, cuja altura chegou até ao céu, e que foi vista por toda a terra, cuja folhagem era formosa, e o seu fruto, abundante, e em que para todos havia sustento, debaixo da qual os animais do campo achavam sombra, e em cujos ramos as aves do céu faziam morada, és tu, ó rei, que cresceste e vieste a ser forte; a tua grandeza cresceu e chega até ao céu, e o teu domínio, até à extremidade da terra. Quanto ao que viu o rei, um vigilante, um santo, que descia do céu e que dizia: Cortai a árvore e destruí-a, mas a cepa com as raízes deixai na terra, atada com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo; seja ela molhada do orvalho do céu, e a sua porção seja com os animais do campo, até que passem sobre ela sete tempos, esta é a interpretação, ó rei, e este é o decreto do Altíssimo, que virá contra o rei, meu senhor: serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo, e dar-te-ão a comer ervas como aos bois, e serás molhado do orvalho do céu; e passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. Quanto ao que foi dito, que se deixasse a cepa da árvore com as suas raízes, o teu reino tornará a ser teu, depois que tiveres conhecido que o céu domina. Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade. 

A hesitação de Daniel, que permaneceu sentado, calando de assombro, não surgiu de ter dificuldade alguma em interpretar o sonho, mas de ser o assunto tão delicado para que desse a conhecer seu significado ao rei. Daniel havia recebido favores do rei, somente favores, quanto saibamos, e ficou-lhe difícil ser o portador de tão terrível ameaça de juízo contra ele como a implicada no sonho. Perturbava-o a necessidade de determinar de que maneira ele poderia melhor comunicar a mensagem. Parece que o rei previa semelhante situação, pois animou o profeta dizendo-lhe que não se deixasse perturbar pelo sonho ou pela interpretação. Era como se dissesse: Não hesites em me dar a conhecer o sonho, qualquer que seja seu significado para mim. 

 Daniel Interpreta o Sonho — Assim animado, Daniel fala em linguagem ao mesmo tempo categórica e delicada: “O sonho seja contra os que te têm ódio, e a sua interpretação para os teus inimigos.” Este sonho apresenta uma calamidade que seria preferível ver cair sobre os inimigos do rei em vez de sobrevir a ele. 

 Nabucodonosor relatara minuciosamente o sonho e, assim que Daniel o informou de que o sonho se aplicava a ele, ficou evidente que o rei pronunciara sua própria sentença. A interpretação a seguir é tão clara que não precisa de explicação. Os juízos com que ameaçava eram condicionais. Destinavam-se a ensinar ao rei que o Céu domina, a palavra Céu significando aqui Deus, o Governante dos céus. Daniel aproveitou a ocasião para aconselhar o rei em face do juízo que o ameaçava. Mas não o acusou com rispidez ou espírito de censura. As armas que ele preferiu usar foram a bondade e a persuasão: “Aceita o meu conselho.” De igual modo o apóstolo Paulo roga aos homens que suportem a palavra de exortação. (Hebreus 13:22). Se o rei quisesse abandonar seus pecados fazendo “justiça” e as suas iniquidades usando de “misericórdia para com os pobres”, o resultado poderia ser um prolongamento de sua tranquilidade ou, como diz a nota marginal de uma versão, “a cura do teu erro”. Pelo arrependimento poderia ter evitado o juízo que o Senhor Se propunha trazer sobre ele. 

Versículos 28-33: Todas estas coisas sobrevieram ao rei Nabucodonosor. Ao cabo de doze meses, passeando sobre o palácio real da cidade de Babilônia, falou o rei e disse: Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade? Falava ainda o rei quando desceu uma voz do céu: A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: Já passou de ti o reino. Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo; e far-te-ão comer ervas como os bois, e passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. No mesmo instante, se cumpriu a palavra sobre Nabucodonosor; e foi expulso de entre os homens e passou a comer erva como os bois, o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceram os cabelos como as penas da águia, e as suas unhas, como as das aves. 

A Exaltação Própria e a Humilhação do Rei — Nabucodonosor não se valeu do conselho recebido, mas Deus teve paciência com ele por mais doze meses antes de desferir o golpe. Durante este tempo, o rei continuou abrigando orgulho em seu coração, e chegou ao ponto em que Deus não poderia deixar de agir. O rei passeava no palácio e, ao contemplar os esplendores daquela maravilha do mundo, a coroa dos reinos, esqueceu-se da Fonte de toda a sua força e grandeza e exclamou: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei?” Os arqueólogos descobriram as ruínas daquela antiga cidade, que Sir Federico Kenyon descreve nas palavras: 

“Estas ruínas confirmaram o caráter geralmente assolado do local, mas também revelaram muito do seu plano, arquitetura e ornamentação. Os edifícios encontrados eram quase todos obra de Nabucodonosor, que reconstruiu a cidade anterior de modo extenso, sendo que o mais elevado de todos os edifícios era seu próprio palácio (“a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade”).” 

Havia chegado o tempo de Nabucodonosor ser humilhado. Uma voz do céu volta a anunciar o castigo de que ele era ameaçado e a Divina Providência imediatamente passou a executá-lo. Perdeu a razão. A pompa e a glória de sua grande cidade já não o encantavam. Com um toque de Seu dedo, Deus arrebatou-lhe a capacidade de a apreciar e desfrutar. Abandonou as moradas dos homens e buscou refúgio e companhia entre os animais do campo. 

Versículos 34-37: Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? Tão logo me tornou a vir o entendimento, também, para a dignidade do meu reino, tornou-me a vir a minha majestade e o meu resplendor; buscaram-me os meus conselheiros e os meus grandes; fui restabelecido no meu reino, e a mim se me ajuntou extraordinária grandeza. Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalto e glorifico ao Rei do céu, porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos, e pode humilhar aos que andam na soberba. 

Nabucodonosor Glorifica ao “Rei do Céu” — Ao fim dos sete anos a mão de Deus deixou de afligir o rei e ele recuperou a razão e o entendimento. Seu primeiro ato foi bendizer o Altíssimo. A esse respeito, Mathew Henry observa com muita propriedade: “Com justiça podem ser considerados vazios de entendimento os que não bendizem nem louvam a Deus; e enquanto não começam a ser religiosos jamais os homens usam corretamente sua razão, nem vivem como homens enquanto não vivem para a glória de Deus.” 

 Foram-lhe restituídas a honra e a inteligência e ele foi restabelecido no reino. A promessa era que seu reino lhe seria assegurado (Verso 26). Diz-se que durante a insanidade de Nabucodonosor, seu filho Evil-Merodaque reinou em seu lugar. A interpretação dada por Daniel ao sonho foi, sem dúvida, bem compreendida em todo o palácio, e provavelmente foi tema de conversação. Daí que o regresso de Nabucodonosor a seu reino deve ter sido esperado com interesse. Não se nos informa por que lhe foi permitido viver em campo aberto e em tal condição de desamparo, em vez de ser confortavelmente atendido pelos assistentes do palácio. 

A aflição teve o efeito a que se destinava. O rei aprendeu a lição de humildade. Não a esqueceu com a volta da prosperidade. Soube reconhecer que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. Expediu a todo o reino uma proclamação real consistente no reconhecimento do seu orgulho e num manifesto de louvor e adoração ao Rei do Céu. 

 É a última menção de Nabucodonosor que encontramos na Escritura. Este decreto, na versão autorizada, data de 563 a.C., ou seja, um ano antes da morte de Nabucodonosor, segundo a cronologia aceita por Adam Clarke, embora alguns atribuam ao decreto uma data que antecede em 17 anos a morte do rei. Nada indica que o rei tenha voltado a cair em idolatria, e conclui-se que ele morreu crendo no Deus de Israel. 

 Assim termina a vida desse homem notável. Em meio a todas as tentações que acompanhavam seu elevado posto de rei, não podemos supor que Deus viu nele sinceridade, integridade e pureza de propósito, que podia usar para a glória de Seu nome? Daí seu maravilhoso procedimento para com ele, com o fim aparente de afastá-lo de sua falsa religião e uni-lo ao serviço do Deus verdadeiro. Temos, primeiramente, seu sonho da grande imagem, que contém valiosa lição para todas as gerações vindouras. Depois, sua experiência com Sadraque, Mesaque e Abede-Nego quando recusaram adorar a imagem de ouro, quando foi novamente levado a reconhecer a supremacia do verdadeiro Deus. Finalmente, temos os maravilhosos incidentes registrados neste capítulo, mostrando os incessantes esforços do Senhor para levar Nabucodonosor a reconhecer plenamente o Criador. E não podemos esperar que o rei mais ilustre do primeiro reino profético, a cabeça de ouro, finalmente participe daquele reino diante do qual todos os reinos serão como palha e cuja glória jamais se obscurecerá? 





Daniel 05 — A Escritura na Parede

Versículo 1: O rei Belsazar deu um grande banquete a mil dos seus grandes, e bebeu vinho na presença dos mil. 

Este capítulo descreve as cenas finais do império babilônico, a transição do ouro para a prata na imagem do capítulo 2, e do leão para o urso na visão do capítulo 7. Alguns supõem ter sido este banquete uma festa fixa anual em honra de uma das divindades babilônicas. Ciro, que então sitiava Babilônia, sabendo que a celebração se aproximava, teve-a em conta em seus planos para tomar a cidade. Nossa tradução diz que Belsazar, tendo convidado mil dos seus grandes, “bebeu vinho na presença dos mil.” Alguns traduzem “bebia [...] contra os mil, dando a entender que, além de quaisquer outras fraquezas que pudesse ter tido, o rei era, pelo menos um grande bebedor.

Versículos 2-4: Enquanto Belsazar bebia e apreciava o vinho, mandou trazer os utensílios de ouro e de prata, que Nabucodonosor, seu pai, tirara do templo que estava em Jerusalém, para que neles bebessem o rei, e os seus grandes, as suas mulheres e concubinas. Então trouxeram os utensílios de ouro, que foram tirados do templo da casa de Deus, que estava em Jerusalém e beberam neles o rei, os seus grandes, as suas mulheres e concubinas. Beberam o vinho, e deram louvores aos deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra. 

O fato de o rei, sob o efeito do vinho, mandar buscar os vasos sagrados tomados de Jerusalém, pode indicar que o banquete se referia em certo sentido a vitórias anteriores sobre os judeus. Era de esperar que o rei usasse aqueles vasos para celebrar a vitória por meio da qual os babilônios os obtiveram. Provavelmente, nenhum outro rei havia ido tão longe em sua impiedade. E enquanto bebiam vinho nos vasos dedicados ao verdadeiro Deus, louvavam os seus deuses de ouro, prata, bronze, ferro, madeira e pedra. Possivelmente, como notamos no comentário a Daniel 3:29, celebravam a superioridade do poder de seus deuses perante o Deus dos judeus, de cujos vasos agora bebiam em honra de suas divindades pagãs. 

Versículos 5-9: No mesmo instante, apareceram uns dedos de mão de homem e escreviam, defronte do candeeiro, na caiadura da parede do palácio real; e o rei via os dedos que estavam escrevendo. Então, se mudou o semblante do rei, e os seus pensamentos o turbaram; as juntas dos seus lombos se relaxaram, e os seus joelhos batiam um no outro. O rei ordenou, em voz alta, que se introduzissem os encantadores, os caldeus e os feiticeiros; falou o rei e disse aos sábios da Babilônia: Qualquer que ler esta escritura e me declarar a sua interpretação será vestido de púrpura, trará uma cadeia de ouro ao pescoço e será o terceiro no meu reino. Então, entraram todos os sábios do rei; mas não puderam ler a escritura, nem fazer saber ao rei a sua interpretação. Com isto, se perturbou muito o rei Belsazar, e mudou-se-lhe o semblante; e os seus grandes estavam sobressaltados. 

A Escritura na Parede — Nenhum fulgor de luz sobrenatural nem trovão ensurdecedor anunciou a intervenção de Deus na ímpia orgia. Apareceu silenciosamente uma mão traçando misteriosos caracteres na parede. Escreveu defronte do candeeiro. O terror se apoderou do rei, porque sua consciência o acusava. Embora não soubesse ler o escrito, sabia que não era mensagem de paz nem de bênção o que fora traçado em letras resplandecentes na parede do seu palácio. A descrição que o profeta faz do efeito que o temor produziu no rei, é insuperável. Mudou-se o semblante do rei, desfaleceu-lhe o coração, dores se apoderaram dele e tão violento era seu tremor, que seus joelhos se entrechocavam. Esqueceu-se de sua jactância e orgia. Esqueceu-se de sua dignidade e em alta voz mandou chamar seus astrólogos e adivinhos para que lhe revelassem o significado da misteriosa inscrição. 

Versículos 10-16: A rainha-mãe, por causa do que havia acontecido ao rei e aos seus grandes, entrou na casa do banquete e disse: Ó rei, vive eternamente! Não te turbem os teus pensamentos, nem se mude o teu semblante. Há no teu reino um homem que tem o espírito dos deuses santos; nos dias de teu pai, se achou nele luz, e inteligência, e sabedoria como a sabedoria dos deuses; teu pai, o rei Nabucodonosor, sim, teu pai, ó rei, o constituiu chefe dos magos, dos encantadores, dos caldeus e dos feiticeiros, porquanto espírito excelente, conhecimento e inteligência, interpretação de sonhos, declaração de enigmas e solução de casos difíceis se acharam neste Daniel, a quem o rei pusera o nome de Beltessazar; chame-se, pois, a Daniel, e ele dará a interpretação. Então, Daniel foi introduzido à presença do rei. Falou o rei e disse a Daniel: És tu aquele Daniel, dos cativos de Judá, que o rei, meu pai, trouxe de Judá? Tenho ouvido dizer a teu respeito que o espírito dos deuses está em ti, e que em ti se acham luz, inteligência e excelente sabedoria. Acabam de ser introduzidos à minha presença os sábios e os encantadores, para lerem esta escritura e me fazerem saber a sua interpretação; mas não puderam dar a interpretação destas palavras. Eu, porém, tenho ouvido dizer de ti que podes dar interpretações e solucionar casos difíceis; agora, se puderes ler esta escritura e fazer-me saber a sua interpretação, serás vestido de púrpura, terás cadeia de ouro ao pescoço e serás o terceiro no meu reino. 

Pelas circunstâncias narradas aqui, parece que na corte e no palácio se haviam esquecido de Daniel como profeta de Deus. Isto se devia, sem dúvida, a ele ter estado ausente, a serviço do reino, em Susã, na província de Elão. (Daniel 8:1, 2, 27). Provavelmente, a invasão do país pelo exército persa o obrigaria a voltar a Babilônia. A rainha que entrou na casa do banquete e fez saber ao rei que havia uma pessoa a quem se dirigir em busca de conhecimento de coisas sobrenaturais deve ter sido a rainha-mãe, filha de Nabucodonosor, que ainda devia ter a lembrança do admirável conselho que Daniel dera no reinado de seu pai. 

Nabucodonosor é aqui chamado pai de Belsazar, segundo o costume então comum de chamar pai qualquer antepassado paterno e filho qualquer descendente masculino. Na realidade, Nabucodonosor era avô de Belsazar. Quando Daniel entrou, o rei perguntou-lhe se era um dos filhos do cativeiro de Judá. Parece ter sido divinamente ordenado que, enquanto os grandes do reino realizavam seu ímpio banquete em honra de seus falsos deuses, um servo do Deus verdadeiro que eles mantinham em cativeiro fosse chamado a pronunciar o juízo que sua ímpia conduta merecia. 

Versículos 17-24: Então, respondeu Daniel e disse na presença do rei: Os teus presentes fiquem contigo, e dá os teus prêmios a outrem; todavia, lerei ao rei a escritura e lhe farei saber a interpretação. Ó rei! Deus, o Altíssimo, deu a Nabucodonosor, teu pai, o reino e grandeza, glória e majestade. Por causa da grandeza que lhe deu, povos, nações e homens de todas as línguas tremiam e temiam diante dele; matava a quem queria e a quem queria deixava com vida; a quem queria exaltava e a quem queria abatia. Quando, porém, o seu coração se elevou, e o seu espírito se tornou soberbo e arrogante, foi derribado do seu trono real, e passou dele a sua glória. Foi expulso dentre os filhos dos homens, o seu coração foi feito semelhante ao dos animais, e a sua morada foi com os jumentos monteses; deram-lhe a comer erva como aos bois, e do orvalho do céu foi molhado o seu corpo, até que conheceu que Deus, o Altíssimo, tem domínio sobre o reino dos homens e a quem quer constitui sobre ele. Tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que sabias tudo isto. E te levantaste contra o Senhor do céu, pois foram trazidos os utensílios da casa dele perante ti, e tu, e os teus grandes, e as tuas mulheres, e as tuas concubinas bebestes vinho neles; além disso, deste louvores aos deuses de prata, de ouro, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra, que não veem, não ouvem, nem sabem; mas a Deus, em cuja mão está a tua vida e todos os teus caminhos, a ele não glorificaste. Então, da parte dele foi enviada aquela mão que traçou esta escritura.

Daniel repreende a Belsazar — Antes de tudo Daniel procura desfazer a ideia de ser influenciado por motivos como aqueles que regiam os adivinhos e astrólogos, e diz: “Dá os teus prêmios a outrem.” Deseja deixar bem claro que não era pela oferta de presentes e recompensas que ele estava assumindo a tarefa de interpretar o escrito. Então narra a experiência de Nabucodonosor, avô de Belsazar, como é exposta no capítulo anterior. Repreendeu a Belsazar porque, embora ele soubesse de tudo isso, não tinha humilhado seu coração, mas se havia exaltado contra o Deus do Céu. Havia elevado sua impiedade ao ponto de profanar os vasos sagrados de Deus, louvando deuses insensíveis, de feitura humana e deixando de glorificar a Deus, de cujas mãos dependia seu alento. Por esta razão, disse-lhe Daniel, é que a mão tinha sido enviada pelo Deus a Quem ele desafiara de forma atrevida e insultante, para que traçasse aqueles caracteres de terrível, embora oculto, significado. A seguir Daniel passa a explicar a escritura. 

Versículos 25-29: Esta, pois, é a escritura que se traçou: MENE, MENE, TEQUEL e PARSIM. Esta é a interpretação daquilo: MENE: Contou Deus o teu reino e deu cabo dele. TEQUEL: Pesado foste na balança e achado em falta. PERES: Dividido foi o teu reino e dado aos medos e aos persas. Então, mandou Belsazar que vestissem Daniel de púrpura, e lhe pusessem cadeia de ouro ao pescoço, e proclamassem que passaria a ser o terceiro no governo do seu reino. 

Daniel Interpreta a Escritura — Nesta inscrição cada palavra representa uma frase curta. MENE: “contado”; TEQUEL: “pesado”; PARSIM, do radical Peres: “dividido”. Deus, a Quem desafiaste, tem o teu reino em Suas mãos e cortou os teus dias e acabou tua carreira precisamente no momento em que pensavas estar no apogeu de tua prosperidade. Tu, que elevaste o teu coração com orgulho, como o maior da Terra, foste pesado e achado mais leve que a vaidade. O teu reino, que em teu sonho subsistiria para sempre, fica dividido entre os inimigos que já estão aguardando às tuas portas. 

 Apesar desta terrível denúncia, Belsazar não se esqueceu de sua promessa e a seguir investiu a Daniel do manto escarlate e da cadeia de ouro e o proclamou terceiro no governo do reino. Daniel aceitou isso, provavelmente com o objetivo de ficar em melhores condições de cuidar dos interesses de seu povo durante a transição do reino ao sucessivo. 

Versículos 30-31: Naquela mesma noite, foi morto Belsazar, rei dos caldeus. E Dario, o medo, com cerca de sessenta e dois anos, se apoderou do reino. 

A cena, tão sucintamente mencionada aqui, é descrita em nossas observações sobre Daniel 2:39. Enquanto Belsazar se entregava a sua presunçosa orgia, enquanto a mão do anjo traçava na parede do palácio a sentença condenatória do império, enquanto Daniel dava a conhecer o terrível significado da escrita celestial, a soldadesca persa entrava pelo esvaziado leito do Eufrates até o coração da cidade e com suas espadas desembainhadas avançavam rapidamente para o palácio do rei. Quase não se pode dizer que o surpreenderam, pois Deus acabara de adverti-lo da sorte que o esperava. Mas o acharam e o mataram. E com ele o império de Babilônia deixou de existir. 



Daniel 06 — Daniel na Cova dos Leões

Versículos 1-5: Pareceu bem a Dario constituir sobre o reino a cento e vinte sátrapas, que estivessem por todo o reino; e sobre eles, três presidentes, dos quais Daniel era um, aos quais estes sátrapas dessem conta, para que o rei não sofresse dano. Então, o mesmo Daniel se distinguiu destes presidentes e sátrapas, porque nele havia um espírito excelente; e o rei pensava em estabelecê-lo sobre todo o reino. Então, os presidentes e os sátrapas procuravam ocasião para acusar a Daniel a respeito do reino; mas não puderam achá-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa. Disseram, pois, estes homens: Nunca acharemos ocasião alguma para acusar a este Daniel, se não a procurarmos contra ele na lei do seu Deus. 

Babilônia foi tomada pelos persas e Dario, o medo, subiu ao trono em 538 a.C. Com a morte de Dario, dois anos mais tarde, 536 a.C., Ciro ocupou o trono. Em algum momento entre estas duas datas ocorreu o evento narrado neste capítulo. 

 Daniel era ativo dirigente no reino de Babilônia, no apogeu da glória deste. Continuou morando na capital quando os medo persas ocuparam a sede do império universal, e estava familiarizado com todos os assuntos do reino. No entanto, não deixou relato consecutivo dos eventos ocorridos durante sua longa atuação nesses reinos. Apenas refere aqui e ali algum acontecimento apto a inspirar fé, esperança e coragem no coração dos filhos de Deus em todas as épocas e levá-los a ser firmes em sua adesão ao que é reto. O acontecimento narrado neste capítulo é mencionado pelo apóstolo Paulo em Hebreus 11, onde nos fala dos que pela fé “fecharam bocas de leões”. 

Daniel, Primeiro Ministro da Medo Pérsia — Dario constituiu sobre o reino 120 príncipes, porque se supõe havia 120 províncias no império, cada uma com seu príncipe ou governador. Com as vitórias de Cambises e de Dario Histaspes o império foi ampliado e chegou a ter 127 províncias (Ester 1:1). Sobre esses príncipes foram colocados três presidentes e destes Daniel era o principal. Daniel foi elevado a este cargo pelo espírito excelente e fidelidade em sua obra. 

 Por ser um grande homem no império de Babilônia, Daniel poderia ser considerado por Dario inimigo sido banido ou eliminado de qualquer outro modo. Ou, como cativo de uma nação então em ruínas, poderia ser desprezado. Deve dizer-se, a crédito de Dario, que Daniel foi preferido sobre todos os demais, porque o arguto rei viu nele um espírito excelente e pensava estabelecê-lo sobre todo o reino. 

 Então se despertou contra ele a inveja dos outros príncipes e se puseram a buscar sua destruição. Em tudo o que se referia ao reino a conduta de Daniel era perfeita. Ele era fiel e verdadeiro. Não podiam achar motivo de queixa contra Daniel nesse particular. Então disseram que não podiam achar ocasião de acusá-lo exceto no concernente à lei do seu Deus. Oxalá seja assim conosco. Pessoa alguma pode obter melhor recomendação.

Versículos 6-10: Então, estes presidentes e sátrapas foram juntos ao rei e lhe disseram: Ó rei Dario, vive eternamente! Todos os presidentes do reino, os prefeitos e sátrapas, conselheiros e governadores concordaram em que o rei estabeleça um decreto e faça firme o interdito que todo homem que, por espaço de trinta dias, fizer petição a qualquer deus ou a qualquer homem e não a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões. Agora, pois, ó rei, sanciona o interdito e assina a escritura, para que não seja mudada, segundo a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogar. Por esta causa, o rei Dario assinou a escritura e o interdito. Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa e, em cima, no seu quarto, onde havia janelas abertas do lado de Jerusalém, três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer.

As Maquinações Contra Daniel — Notemos a conduta destes homens para conseguirem seus nefandos propósitos. Abordaram o rei de maneira tumultuosa, diz uma nota marginal. Chegaram como se houvesse surgido um assunto urgente, para juntos apresentarem ao rei. Alegaram que todos estavam de acordo. Isso era falso, pois Daniel, o principal de todos eles, não fora consultado. 

 O decreto que apresentaram parecia destinado a aumentar a honra e o respeito tributados à vontade real. Durante trinta dias, nenhuma oração ou petição, declararam, devia dirigir-se a homem ou a algum deus, exceto ao rei. Por meio dessa lisonja, os príncipes ocultaram seu maligno intento contra Daniel. O rei assinou o decreto, que ficou registrado como lei inalterável dos medos e persas.

 Notemos a sutileza destes homens — a que extremos chegam as pessoas para acarretarem ruína a um homem bom. Se houvessem feito constar no decreto que nenhuma petição se fizesse ao Deus dos hebreus, já que esse era o fim desejado, o rei lhes teria imediatamente percebido o objetivo e não teria assinado o decreto, Mas deram ao decreto uma aplicação genérica e se mostraram dispostos a ignorar e insultar todo o seu sistema de religião e toda a multidão dos seus deuses para arruinarem o objeto do seu ódio.

 Daniel percebeu a conspiração que contra ele se tramava, mas nenhuma providência tomou para a desbaratar. Simplesmente confiou em Deus e deixou o resultado em Suas mãos. Não saiu da capital com o pretexto de atender assuntos governamentais, nem cumpriu suas devoções de maneira mais secreta que a comum. Ao saber que fora assinado o decreto, ajoelhava-se no seu quarto três vezes por dia, exatamente como antes, com o rosto voltado para sua amada Jerusalém e continuou elevando orações e súplicas a Deus.

Versículos 11-17: Então, aqueles homens foram juntos, e, tendo achado a Daniel a orar e a suplicar, diante do seu Deus, se apresentaram ao rei, e, a respeito do interdito real, lhe disseram: Não assinaste um interdito que, por espaço de trinta dias, todo homem que fizesse petição a qualquer deus ou a qualquer homem e não a ti, ó rei, fosse lançado na cova dos leões? Respondeu o rei e disse: Esta palavra é certa, segundo a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogar. Então, responderam e disseram ao rei: Esse Daniel, que é dos exilados de Judá, não faz caso de ti, ó rei, nem do interdito que assinaste; antes, três vezes por dia, faz a sua oração. Tendo o rei ouvido estas coisas, ficou muito penalizado e determinou consigo mesmo livrar a Daniel; e, até ao pôr do sol, se empenhou por salvá-lo. Então, aqueles homens foram juntos ao rei e lhe disseram: Sabe, ó rei, que é lei dos medos e dos persas que nenhum interdito ou decreto que o rei sancione se pode mudar. Então, o rei ordenou que trouxessem a Daniel e o lançassem na cova dos leões. Disse o rei a Daniel: O teu Deus, a quem tu continuamente serves, que ele te livre. Foi trazida uma pedra e posta sobre a boca da cova; selou-a o rei com o seu próprio anel e com o dos seus grandes, para que nada se mudasse a respeito de Daniel.

Daniel Lançado na Cova dos Leões — Feita a armadilha, só restava a esses homens espreitar sua vítima para fazê-la cair. Assim, voltaram a reunir-se, desta vez na residência de Daniel, como se algum negócio importante repentinamente os obrigasse a consultar o principal dos presidentes e eis que o acharam orando ao seu Deus, exatamente como pretendiam e esperavam encontrá-lo. Até aí tudo dera certo para eles. Não tardaram, pois, a apresentar-se ao rei com a acusação. 

 Ao obterem do monarca a confirmação de que o decreto estava em vigor, se acharam em condições de apresentar-lhe a informação contrária a Daniel. E a fim de excitar os preconceitos do rei, disseram: “Esse Daniel, que é dos exilados de Judá, não faz caso de ti, ó rei, nem do interdito que assinaste.” Sim, queixaram-se eles, esse pobre cativo, que depende de ti em tudo o que desfruta, em vez de ser agradecido e apreciar teus favores, não manifestou consideração para contigo, nem dá atenção a teu decreto. Então o rei viu a cilada que haviam preparado tanto para ele como para Daniel, e trabalhou até ao pôr do sol para livrá-lo, fazendo provavelmente esforços pessoais junto aos conspiradores para induzi-los à indulgência, ou procurando, por argumentos e esforços, a ab-rogação da lei. Mas a lei ficou de pé; e Daniel, o venerável, o grave, o íntegro e ilibado servo do reino, foi lançado na cova dos leões. 

Versículos 18-24: Então, o rei se dirigiu para o seu palácio, passou a noite em jejum e não deixou trazer à sua presença instrumentos de música; e fugiu dele o sono. Pela manhã, ao romper do dia, levantou-se o rei e foi com pressa à cova dos leões. Chegando-se ele à cova, chamou por Daniel com voz triste; disse o rei a Daniel: Daniel, servo do Deus vivo! Dar-se-ia o caso que o teu Deus, a quem tu continuamente serves, tenha podido livrar-te dos leões? Então, Daniel falou ao rei: Ó rei, vive eternamente! O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca aos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; também contra ti, ó rei, não cometi delito algum. Então, o rei se alegrou sobremaneira e mandou tirar a Daniel da cova; assim, foi tirado Daniel da cova, e nenhum dano se achou nele, porque crera no seu Deus. Ordenou o rei, e foram trazidos aqueles homens que tinham acusado a Daniel, e foram lançados na cova dos leões, eles, seus filhos e suas mulheres; e ainda não tinham chegado ao fundo da cova, e já os leões se apoderaram deles, e lhes esmigalharam todos os ossos. 

Daniel Libertado — A conduta do rei, após Daniel ter sido lançado na cova dos leões, atesta seu genuíno interesse pelo profeta, e a severa condenação que sentiu por seu próprio procedimento. Ao amanhecer, o rei dirigiu-se à cova das feras famintas. Daniel estava vivo, e em sua resposta à saudação do monarca não o repreendeu por ceder aos seus maus conselheiros. Em tom respeitoso disse: “Ó rei, vive para sempre.” Lembra em seguida ao rei, de maneira que o deve ter deixado profundamente sentido, mas sem ofendê-lo, que perante ele não havia praticado mal algum. Por ser inocente, Deus, a quem ele continuamente servia, tinha mandado Seu anjo e fechado a boca dos leões. 

 Ali estava, pois, Daniel, protegido por um Poder superior a qualquer poder da Terra. Sua causa ficara vindicada e provada sua inocência. “E nenhum dano se achou nele, porque crera no seu Deus”. A fé o salvou. Operara-se um milagre. Por que, então, os acusadores de Daniel foram trazidos e lançados na cova dos leões? Provavelmente atribuíram a proteção de Daniel não a qualquer milagre em seu favor, mas a que os leões não estavam com fome na ocasião. E o rei teria dito: Então também não os atacarão e por isso vamos prová-lo lançando vocês no lugar de Daniel. Os leões estavam com bastante fome quando não foram impedidos de agarrar os culpados e estes homens foram despedaçados antes de chegarem ao solo. Assim foi Daniel duplamente vindicado e surpreendentemente se cumpriram as palavras de Salomão: “O justo é libertado da angústia, e o perverso a recebe em seu lugar.” Provérbios 11:8. 

Versículos 25-28: Então, o rei Dario escreveu aos povos, nações e homens de todas as línguas que habitam em toda a terra: Paz vos seja multiplicada! Faço um decreto pelo qual, em todo o domínio do meu reino, os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel, porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre; o seu reino não será destruído, e o seu domínio não terá fim. Ele livra, e salva, e faz sinais e maravilhas no céu e na terra; foi ele quem livrou a Daniel do poder dos leões. Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario e no reinado de Ciro, o persa. 

Daniel Exaltado — O resultado do livramento de Daniel foi a promulgação, em todo o império, de outra proclamação, em favor do verdadeiro Deus, o Deus de Israel. Ordenava-se que todos temessem e tremessem diante dEle. O que os inimigos de Daniel maquinaram para o arruinar, resultou em sua elevação. Neste caso e no caso dos três hebreus na fornalha ardente, Deus aprovou duas grandes divisões do dever: a negativa em ceder a qualquer pecado conhecido, e a negativa em omitir a qualquer dever conhecido. Destes exemplos o povo de Deus em todas as épocas há de obter estímulo. 

 O decreto do rei apresenta o caráter do verdadeiro Deus: Ele é o Criador; todos os outros não têm vida em si mesmos. Permanece para sempre; todos os outros são impotentes e sem valor. Tem um reino; porque fez e governa a todos. Seu reino não será destruído; todos os demais findarão. Seu domínio não tem fim; nenhum poder humano pode prevalecer contra ele. Livra os que estão em cativeiro. Liberta Seus servos de seus inimigos quando invocam Sua ajuda. Opera maravilhas nos céus e sinais na Terra. E para completar tudo, livrou Daniel, oferecendo aos nossos olhos a mais plena prova de Seu poder e bondade ao resgatar Seu servo do poder dos leões. Quão excelente elogio ao grande Deus e a Seu servo fiel! 

 Assim termina a parte histórica do livro de Daniel.